sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Velho Grêmio!

"Bom dia, Grêmio!

Quero ser o primeiro a te abraçar nesta data tão especial. Afinal, sou teu mais antigo parceiro. Nestes cem anos da tua vida, há mais de 94 sou testemunha presencial de uma profícua existência, como se diz nas solenidades.

Já te conheci taludinho, o que me custou alguns cascudos, como é comum nessas amizades de infância. Tudo bem, eu pude dar o troco e chegamos sem ressentimentos à maturidade. Nos meus primeiros anos, quando eu vivia em casa alugada, tu já eras o feliz proprietário de um fortim em bairro chique; depois fui eu que construí morada de concreto e alvenaria, cenário até de festas mundiais; a comparação te estimulou e aí te mudaste para a bela casa de hoje; pouco depois comecei a erguer o palácio onde vivo - e disso tudo lucraram os nossos milhões de amigos. Dizem que somos opostos inconciliáveis e de fato temos grandes diferenças. Não só de idade, mas de origem e, por conseqüência de temperamento e jeito de ser. No geral, és mais contido, eu mais extrovertido, embora, ultimamente, venhas revelando uma pontinha de incontida admiração pela minha popularidade. [nota do autor: legítima "puxada de brasa" pra própria sardinha, hehe]

Somos também muito parecidos (que não nos ouçam os mais radicais dos nossos seguidores), sobretudo na paixão por nossa terra comum, o gosto de representá-la bem, e mais ainda na afeição sem limites por esse jogo incrível, em que uma bola de couro rola pelos mágicos tapetes verdes que habitamos e visitamos, onze de cada lado, milhões pra cada lado.

Quando fizeste 50 anos, eu estava lá. Quase estraguei a festa, desculpa o mau jeito! (faz parte: não esqueçamos dos cascudos...). Quando eu fiz 60 anos, também te chamei para a comemoração, que, por sinal, terminou em barraco, o que também faz parte. E a cada 15 de setembro eu vou na tua casa, como vais na minha a 4 de abril, e ali trocamos discursos em que, nós sabemos, o apreço é sincero. Dizem até que não podemos viver um sem o outro.

Tiveste grandes dias e amargas passagens nestes cem anos, como eu também, nos meus 94; a vida é assim, mais alto o coqueiro, maior é o tombo, diz a canção popular - mas ninguém nos acusará de termos jamais violado o nobre espírito que preside as competições esportivas. Com os bons e os maus resultados, aprendemos e também ensinamos que não há desonra nas derrotas de campo, e que a uma hora de amargura sempre se erguerá um momento de glória.

Recebe, velho Grêmio centenário, o abraço nonagenário do Internacional."

O texto acima foi publicado, em nome do S. C. Internacional, na Segunda-Feira dia 15 de Setembro de 2003. Assinado por um então humilde Fernando Carvalho.

Na verdade foram belas palavras, que certamente serão retribuídas por nós, no centenário do rival. Afinal de contas, a rivalidade pode e deve permanecer no campo gramado ou no campo das idéias e das brincadeiras, nada mais que isso. Porque quando se generaliza e se extremiza as coisas, a gente perde a beleza delas. Quem já foi num Gre-Nal sabe a magia que é, tu não assiste um jogo de futebol, tu sente um momento único. Por causa do extremismo de alguns (e às vezes, de muitos), a gente está perdendo isso.

Que atitudes como esta acima sirvam para resgatar o velho espírito do Gre-Nal, das flautas, SIM, das tiradas dos dirigentes, SIM, do vigor e da firmeza dentro de campo, SIM, mas também com a grandeza que nos foi sempre peculiar neste que é, na minha nada humilde opinião, o maior clássico que o mundo já viu.


OBS.: O texto foi encontrado em jornal guardado, antigo, pelo amigo Maurício Brum, proprietário do ÓTIMO blog Futebesteirol [http://futebesteirol.blogspot.com/], o qual permitiu a reprodução do mesmo.


Abraços e Beijos,
André R. Finken Heinle.

4 comentários:

  1. Belas palavras do sr. Carvalho.
    Fora de campo somos praticamente iguais, sim. Praticamente. Com uma leve superioridade dos tricolores. :D

    Abraço, André

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  2. Booooooh! Afudê, afudê...
    E concordo plenamente contigo André, algumas coisas são divertidas apenas enquanto brincadeira, pena que algumas pessoas tentam estragar (sabe-se lá pq) a beleza disso tudo.
    Beijão e dale Grêmio! :D

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  3. Olha, esse era o antigo Fernando Carvalho... antes de deixar com que um ar soberbo dominasse o seu ser. Não consigo imaginar o Carvalho "dizendo" estas palavras.

    Enfim, o texto é muito bonito e realmente devemos manter uma rivalidade saudável, uma convivência fraterna (e como irmãos as vezes discute, ficam sem se falar, mas são sempre irmãos)

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  4. E aí rapaz, não sabia que tu também se manifestava nas ondas da internet. Grande abraço!

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